Isso é o que acontece quando você não troca o óleo do seu carro por mais de 100.000 km

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Essa imagem grotesca que vocês veem acima, prezados leitores, é o cabeçote de um motor VR6 do Audi TT que rodou mais de 130.000 km sem trocar o óleo. Não se sabe ao certo os motivos que levaram alguém a usar um carro tão bacana por tanto tempo com o mesmo óleo — o usuário que publicou a foto no Reddit deve ter saído correndo para trocar o óleo do seu carro e não teve tempo de explicar o que aconteceu.

Quer dizer, nós sabemos o que aconteceu: o óleo ficou cada vez mais sujo, mais espesso, começou a perder suas propriedades ideais e acabou assim acumulado e nojento, provavelmente “travando” o motor do carro. Você sabe, o mundo está cheio de gente que só faz manutenção do carro quando ele para de andar.

Mas como isso acontece exatamente? Por que o óleo se acumula dessa forma? O que um óleo velho e sujo pode causar ao motor do seu carro? Você tem certeza de que troca o óleo do seu carro com o intervalo correto? É o que iremos explicar neste post.

Se tivesse sido bem cuidado, o cabeçote do motor VR6 da foto de abertura do post estaria desse jeito:

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Bonito, não? Foto: VWvortex.com

Quando falamos em “bem cuidado” não significa apenas usar o óleo recomendado, ou fazer as trocas de acordo com o manual, usar óleo de qualidade e filtros novos. Isso é 90% do negócio. Mas há ainda alguns fatores que você deveria levar em consideração.

O primeiro deles é a forma de uso do carro. Os sistemas de lubrificação por cárter úmido são baseados na gravidade, uma bomba leva o óleo para o topo do motor, onde ele se espalha ao sair pressurizado de lá ele “escorre” de volta para o cárter através dos dutos e galerias projetados para isso — alguns daqueles furos e orifícios que você vê nos cabeçotes e blocos dos motores. Por isso, a lubrificação depende essencialmente da fluidez do óleo — se ele não fluir na velocidade ideal, alguma parte do motor acabará com lubrificação deficiente, aumentando seu desgaste.

A fluidez tem uma relação direta com a viscosidade. Quanto mais viscoso o óleo, menos fluido ele será. Como a viscosidade tem relação direta com a temperatura do óleo, os lubrificantes usamos nos motores são multiviscosos. Eles são desenvolvidos para ter seu desempenho otimizado na temperatura de trabalho ideal dos motores (algo que varia de acordo com o fabricante, mas fica em torno dos 100 a 120 graus nos carros de passeio), ou seja: o óleo tem sua viscosidade ideal nesta temperatura. Contudo, nos motores modernos o óleo leva cerca de 10 km em funcionamento normal para chegar à temperatura ideal. Por isso nesse período “frio” o óleo multiviscoso tem propriedades de viscosidade próximas da ideal. Para entender melhor a mecânica da lubrificação, leia esta série de posts do nosso colaborador Marcelo Allracing, publicada há alguns meses.

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Voltando à questão do uso do carro, quando você percorre um trajeto curto demais, o óleo do motor não chega à sua temperatura ideal, o que significa que ele ainda não tem a fluidez nem a viscosidade ideais para uma lubrificação plenamente eficiente. É por isso que não é recomendável usar o carro em trajetos curtos: você vai ligar o motor e desligá-lo com o óleo ainda “frio” e sem fluidez. A repetição diária dessa utilização pode fazer com que o óleo viscoso demais se acumule nos orifícios e passagens menores do motor.

É por isso que, se quiser preservar seu motor da melhor maneira possível, você não deve se prender apenas à manutenção básica disposta no manual ou recomendada pela concessionária. Geralmente os lubrificantes, além da especificação, são aprovados por normas dos fabricantes. Você pode variar a viscosidade do lubrificante desde que ele esteja de acordo com essa norma. A maioria dos carros traz essa informação no manual. Por isso, se você fizer um trajeto curto diariamente, basta procurar um óleo “mais fino” quando frio (0W30 em vez de 15W30, por exemplo) e que esteja dentro das especificações da norma técnica do fabricante aprovada para seu carro. O mesmo vale se você mora em um lugar frio — você não usaria o mesmo óleo no verão de Natal/RN e no inverno de Porto Alegre/RS, não é mesmo?

Veja o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=OaaOhSdR8To

A outra causa desse acúmulo absurdo de óleo velho no motor do Audi TT tem a ver com uma das funções secundárias do óleo: a limpeza interna do motor. A combustão libera resíduos que acabam misturadas ao óleo pela própria natureza do funcionamento do motor e lubrificação. Essas impurezas são removidas pelo filtro de óleo e, posteriormente, com sangria do sistema. Ao prolongar o uso do mesmo óleo no motor, ele acabará contaminado pelos resíduos, ficando mais “grosso” e prejudicando a lubrificação, pelo acúmulo nos dutos e passagens mais estreitas do motor.

Também é por esse motivo que, em caso de uso severo contínuo, é uma boa ideia antecipar as trocas para garantir que o óleo esteja sempre limpo. Por uso severo, entenda o uso do carro para distâncias curtas (inferiores a 10 km), trânsito intenso, em que o carro passa muito tempo em marcha lenta ou no “para-e-anda”, e em locais muito poluídos ou estradas de terra (com partículas pesadas no ar).

Outra recomendação: se seu carro for mais antigo, vale avaliar a possibilidade de usar um lubrificante mais moderno. O manual leva em consideração a tecnologia da época da fabricação do carro e a evolução técnica dos lubrificantes pode ajudar a preservar melhor o seu motor.

Um exemplo prático pessoal é o que aconteceu há algum tempo com meu carro, um Mercedes A160 2005. Por mera distração, atrasei a troca de óleo em quase 1.500 km durante o inverno, que é frio e seco — e bastante empoeirado no meu bairro. Como resultado, o sensor do nível de óleo acabou entupido pelo óleo grosso. Por sorte não houve formação de borra, mas precisei encurtar a validade das duas trocas de óleo seguintes de 7.500 km para 4.500 e 5.000 km, respectivamente. O sensor voltou a funcionar e, recentemente, quando abri a tampa de válvulas para substituir os vedadores de válvulas encontrei tudo em perfeito estado:

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As consequências de usar óleo velho, ou fora de especificação, contudo, podem ser desastrosas. Essa imagem abaixo mostra o cabeçote de um outro Mercedes Classe A com a manutenção renegada. Ele nem precisou dos 130.000 do Audi TT para formar essa imundície toda, o carro tinha pouco mais de 100.000 km quando o proprietário ouviu “um barulho estranho e um estouro”.

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O acúmulo de óleo velho impediu a passagem do óleo novo, prejudicando significativamente a lubrificação. O atrito entre as partes móveis aumentou e o comando de válvulas travou, parando também o virabrequim, mas não antes de abrir a corrente de sincronização. Um belo prejuízo.

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